20040518:

Sete personagens à procura de mim.

Eu crio personagens, coloco-os nos meus romances, e faço com que digam certas coisas e se comportem de um certo modo. Como qualquer escritor. Como Ernesto Sábato. Como Henry Miller. Como Roberto Arlt e seus sete loucos. Como Robbe-Grillet. Eu crio esses personagens e procuro dar-lhes vida, torná-los verossímeis aos olhos do leitor, porque meu realismo ainda não é mágico. (A propósito, estou lendo Faulkner: "O som e a Fúria"). Junto a isso situações por quais passei, coisas que li no jornal de ontem, histórias que ouvi.

Como qualquer escritor.

Gosto de escrever na primeira pessoa do singular porque suponho que isso dá mais credibilidade à obra. Neste meu último livro, um romance, experimentei criar um personagem na terceira pessoa, fiz com que se parecesse comigo em certos aspectos, dei-lhe o nome de Paritosh e coloquei em sua boca palavras que eu gostaria de dizer. Fiz com que se comportasse de forma irreverente, livre, ousada e misteriosa. Faço inclusive com que os dois personagens, o narrador e Paritosh, conversem sobre vários assuntos e até discutam seus pontos de vista contrários. Chego a insinuar que se amam sexualmente. Não descrevi a cena erótica entre os dois porque, lamentavelmente, devido a preconceitos hindus trazidos da infância, ainda não tive relações desse tipo. Assim como nunca fumei maconha e um dia talvez me ressinta dessa falha.

Pois, bem. Nesse meu romance, cujo título é Solidão a Mil, faço experiências literárias. Crio personagens, como já disse, invento histórias, minto bastante, e também coloco algumas verdades historicamente comprováveis.

Como qualquer escritor.

Misturo fatos com as versões que meus personagens têm dos mesmos fatos. Misturo reminiscências com desejos. Invento lembranças que tenho de verdade. Realizo fantasias que posso até mesmo já tê-las tido. Misturo ficção com história. Como qualquer escritor...

E agora vem um idiota metido à besta, autodenominado "o maior crítico literário de Candahar", dizer-me que não devo "misturar ficção com biografia". Vem exigir que eu não crie personagens que tenham qualidades parecidas com as que nosso pai tinha, porque "a imagem dele não pode ficar manchada para a posteridade". Tenha o santo paciência... Se o infeliz lesse jornal, saberia que o vencedor do Booker Prize 2001 foi o australiano Peter Carey. Este escritor, além de misturar "ficção com biografia", criou personagens "inspiradas" em outras do livro Grandes Esperanças, de Charles Dickens. Com o resultado dessa "mistura" produziu o livro "Jack Maggs", e com ele ganhou um dos prêmios literários mais respeitados do mundo. Mais que o Nobel. Ou seja, se Peter Carey seguisse os conselhos do "maior crítico literário de Candahar" não teria provavelmente ganho o Booker Prize daquele ano.

(...)

Só para finalizar esta parte: no meu livro anterior eu disse que o pai do narrador perdeu o juízo lá no fundo do quintal da casa dele. Mandou plantar 360 pés de girassol e ficava o dia todo sentado num banquinho de madeira, vendo as plantas "girarem". As plantas giravam porque ele bebia – foi a solução literária que encontrei para justificar a metáfora. Eu tenho que dar verossimilidade às minhas figuras. E o meu "crítico", baseado só nisso, diz que eu escrevi que "meu pai ficou louco". Sim, claro, o "pai do personagem" ficou louco.

Mas não o meu!

Aliás, o meu era lúcido ao extremo.

Não consigo entender o elevadíssimo grau de paranóia a que esse coitado chegou. Me disseram que todo crítico é burro. Estou quase acreditando. Se ele tiver acesso aos meus outros livros, que ainda nem publiquei, ficará tão impressionado que suponho teremos de interná-lo num manicômio (no bom sentido). E já começo a me excitar com essa possibilidade. De escrever uma história, eu digo. E criar mais um personagem. Vou chamar o tio Jorah de irmão, vou descrever algumas passagens que a Hosanya me contou, misturar com notícias de jornal, visitar Franco da Rocha neste domingo, lembrar-me do sogro do Bhetus quebrando pratos com os próprios dentes à mesa do jantar, vou lembrar-me do carroceiro Joaquim, nosso avô alcoólatra, e de suas latinhas enferrujadas de massa de tomate, e pronto – está criado mais um personagem. E – pronto! – meu "crítico particular" vai ler e ficar puto da vida outra vez. E vai continuar reclamando.

Às vezes eu me refiro a ele como "o meu irmão". Por isso é que, quando as pessoas me perguntam por e-mail sobre "esse tal de meu irmão", eu lhes respondo, simplesmente: ─ Meu irmão não existe: é só um personagem que eu criei. (Meu romance estava precisando de um lunático...)

Como vocês vêem, eu invento personagens.

Como qualquer escritor.

Edson Marques
Agosto 2001



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